sábado, 12 de abril de 2014

ESQUEMA DE DEFECTIVIDADE/VERGONHA

DEFECTIVIDADE/VERGONHA
É QUE NARCISO ACHA FEIO O QUE NÃO É ESPELHO

            Joel, 52 anos, procurou meu consultório pois sabia que o trabalho que eu desenvolvia se pautava na  Psicologia Positiva, com a  intenção de potencializar  seus talentos. Era um homem bem sucedido, havia construído uma carreira brilhante e  conquistado muitos bens materiais. No entanto seu relacionamento com as pessoas de uma maneira geral sempre foi péssimo. Além disso, não conseguia controlar os seus impulsos, vivia aos berros com as pessoas mais próximas pois “acreditava” ser melhor que todo mundo.Não se incomodava em descobrir que afastava as pessoas de seu convívio ou que estava sendo injusto com algumas.  Em determinados momentos também sofria do que batizou de “paralisia da vontade”, quando não desejava nada nem ninguém.  Sofria de insônia, dormia de dia e acordava à noite.
Sempre começava suas frases com “EU”  e seu tom nas sessões de terapia era arrogante. Questionava tudo que ouvia e sempre se auto engrandecia. Tudo dele era melhor. Suas roupas, seus carros, seus imóveis. Ele também queria trocar de esposa, pois ela não “servia” mais. Como acontece com frequência com este tipo de paciente, Joel escolheu casar-se com uma mulher que reforçasse seu esquema. Sua esposa, que no início parecia ideal, era uma mulher fria, centrada na sua própria tristeza. Ele, sempre que podia, a desvalorizava e a ofendia verbalmente. O casamento se transformou em  um deserto gelado.
Nos relacionamentos íntimos, pessoas com esquema de Defectividade/Vergonha tendem a ser incapazes de absorver amor e de ver os relacionamentos como fontes de aprovação e validação. Carecem de empatia com pessoas próximas. Com frequência também sentem inveja de terceiros percebidos de alguma forma como superiores. Idealizam seu objeto de amor inicialmente e depois, com o tempo, desvalorizam cada vez mais o parceiro.
Estes pacientes, em geral, vieram de lares com pais ausentes, passivos, distantes, abusivos e que os rejeitavam. Na infância, sentiam-se especiais quando atingiam padrões impostos pela mãe ou pelo pai, caso contrário eram ignorados ou desvalorizados. Em lugar de amor verdadeiro e altruísta, a criança recebe aprovação condicional: fez o que eu espero, muito bem, caso contrário, será desconsiderado.
Muitos pacientes narcisistas eram talentosos de alguma maneira quando crianças e receberam mensagens opostas dos pais: um inflava o seu valor, enquanto o outro o ignorava ou desvalorizava.
Este era o caso da mãe do Joel. Segundo seu relato em sessão, ela parecia feita de pedra. Sempre que vem a mente a sua lembrança ela se apresenta imóvel, triste e preocupada apenas com  seus próprios dilemas. Para se proteger da frieza da mãe, Joel também se tornou pedra também. Em determinados momentos se colocava como uma criança solitária, noutros se escondia atrás da agressividade e do auto-engrandecimento para afastar a sua dor.
Em seu íntimo,  se sentia falho, ruim, inferior. Considerava-se defectível, não era digno de receber amor. Tinha medo dos seus defeitos serem percebidos, por isto se apresentava de maneira a não ser muito acessível ao outro, ele precisava se manter no pedestal.
Quando grita ou se engrandece exageradamente é para hipercompensar a falta de importância que traz das experiências emocionais mal resolvidas na infância. Joel sofre, está trabalhando agora suas questões!

A terapia continua!!!!! Joel tá indo!


Até breve!
(0s nomes aqui citados são fictícios)

Adriana Santiago
CRP: 05-20345
PSICOLOGIA POSITIVA


sexta-feira, 11 de abril de 2014

ESQUEMA DE DESCONFIANÇA/ABUSO

ESQUEMA DESCONFIANÇA/ABUSO
A HISTÓRIA DE EDUARDO


   Eduardo veio de uma infância traumática, assim como boa parte dos habitantes do planeta terra. Seu pai, um alcoólatra inveterado, bebia todas as noites num bar perto de casa. Com nove anos de idade, ele se sentia na obrigação de trazê-lo arrastando as pernas pelas ruas do bairro pobre onde moravam.

   Enquanto seu pai se embriagava, sua mãe levava os amantes para casa e fazia sexo na sua frente. Quando não havia amante disponível, a mãe lhe mostrava o corpo, de maneira sexualmente provocante, com a desculpa de educá-lo para a vida. Ela também o submetia à abusos físicos e verbais. Dizia que ele era um imbecil e que não devia ter nascido.

   O abuso da mãe e a negligência do pai, o deixaram com a impressão de que era inadequado, ele tinha vergonha de existir, se sentia sem valor e não merecedor de amor.
Agora, com 36 anos, Eduardo cria o seu filho de 5, pois sua esposa  o deixou por outro homem, calcificando sua crença central: “As pessoas sempre vão  usar e abusar de mim”. Cabisbaixo, triste e desamparado, sofre de ansiedade social e não consegue controlar a sua raiva. Neste estado,  procurou a terapia.

   Pacientes com o esquema central de Desconfiança/Abuso têm a expectativa de que os outros vão mentir, trair e obter vantagens sobre eles de várias maneiras. Irão também tentar humilhá-los ou abusar deles. Geralmente são defensivos e desconfiados. Acreditam que as pessoas querem machucá-los intencionalmente ou, em estágios mais graves do esquema, têm certeza de que as pessoas são malevolentes, sádicas e têm prazer em magoar os outros. Chegam a pensar que seus pares só querem torturá-los e usá-los sexualmente.  Geralmente evitam a intimidade, não compartilham seus sentimentos e pensamentos mais profundos e como “ataque preventivo”, muitas vezes acabam abusando ou  traindo outras pessoas: “Vou pegá-los antes que me peguem”. Este é o pensamento que rege suas ações. É também comum escolherem parceiros abusadores e permitem que abusem dele física, sexual e emocionalmente, pois assim confirmam a tese já conhecida da sua infância.

   Quando Eduardo escolheu Marina, ele já sabia de seu comprometimento afetivo, mas mesmo assim decidiu apostar. Mais uma vez aqui não foi o AMOR que regeu a decisão, mas a cumplicidade sintomática. Marina ia o trair. Todo seu histórico de vida e estrutura mental indicavam isto. Ela era totalmente “intensa” nos sentimentos. Variava de estados de muita euforia, para profunda depressão. Seus vários relacionamentos amorosos de curta duração denotavam uma instabilidade e falta de controle emocional. Eduardo sabia e topou se casar com ela.

  Ele precisava reforçar o que foi vivido em sua infância traumática. Era incapaz de formar vínculos seguros e satisfatórios com outras pessoas, pois acreditava que suas necessidades de segurança, cuidado, amor e pertencimento não seriam atendidas.

   Atualmente Eduardo encontra-se em tratamento, tentando reestabelecer vínculos mais estáveis e fazer escolhas mais saudáveis para a sua vida amorosa. Está começando a entender que construímos, na relação, o amor tão esperado por todos nós.
Vida que segue!!!!!!

   No próximo post, falarei sobre o Esquema de Defectividade/Vergonha!

   Até breve

(Todos os nomes aqui citados são fictícios)


Adriana Santiago
CRP: 05-20345

PSICOLOGIA POSITIVA

segunda-feira, 7 de abril de 2014

O Esquema de Abandono

O ESQUEMA DE ABANDONO

A HISTÓRIA DE ÉRICA


Érica* (27 anos), buscou atendimento depois de tentar se matar. Se sentia absolutamente infeliz, sua vida não tinha mais sentido, estava com muita raiva e não se via incluída em lugar nenhum. Seu marido havia a trocado por outra mulher. O abandono, para Érica, era da ordem do insuportável. O que mais a abatia não era o amor que sentia por Jorge (32)  ou a saudade que podia ecoar em seu peito, mas o fato de ter sido preterida. A cola que os unia, definitivamente não era o amor.
Enlouquecia todas as vezes que imaginava seu ex-marido com a atual mulher. Passava por momentos de muita agressividade e outros de profunda apatia. Tinha feito diversos escândalos no trabalho dele e ameaçado de morte, Maíra, o novo amor do seu antigo parceiro. Abusava do álcool e das drogas e se cortava sempre que se sentia desamparada.
Este tipo de comportamento era recorrente. Todas as vezes que o abandono a ameaçava , se comportava exatamente da mesma forma. Teve muitas relações “amorosas”  na vida e todas as vezes se apaixonava com obsessão. Sempre escolhia parceiros instáveis, comprometidos e com alta probabilidade de abandoná-la.  Isto “servia” para confirmar a sua crença central de que todas as pessoas que ama vão deixá-la e rejeitá-la.
O diagnóstico era de Transtorno de Personalidade Boderline (TPB) cujo esquema principal é o  abandono. Pacientes com este tipo de esquema se apegam demais às pessoas próximas, são possessivos e gostam de controlar o outro, tem ciúmes demasiados e estão sempre competindo. As emoções típicas deste tipo de transtorno são ansiedade crônica com relação à perda das pessoas, tristeza ou depressão quando há uma falta real ou percebida e  raiva intensa daqueles que a deixaram.
A vida de Érica não foi muito fácil até ali. Seu ambiente familiar na infância era inseguro  e a ela sofria de privação emocional. Tinha um irmão mais velho diagnosticado com déficit de atenção e seus pais, na maior parte do tempo, só se dedicavam a ele.  Com frequência este irmão abusava dela física  e sexualmente. Sua mãe era demasiadamente crítica em relação à ela e intolerante com as suas emoções. A infelicidade de Érica a incomodava e ela deixava bem claro que não gostava da filha. Inclusive expressava isto verbalmente. Dizia também que ela era uma “desgraçada” e Érica acreditava.  Seu pai era distante e deprimido. Não ficava muito tempo em casa, vivia em seu próprio mundo.
Nenhum dos pais a protegia, ambos eram emocionalmente frios e distantes e a culpavam pelo mau comportamento do irmão. Assim, Érica cresceu acreditando que ninguém deveria cuidar dela pois não merecia atenção e nem afeto. Por isto perpetuou o esquema de abandono ao longo de sua existência, pois precisava criar “sintonia” com a sua crença central.
O objetivo da terapia foi fazê-la entender que pode fazer escolhas amorosas mais acertadas e torná-la mais consciente de suas necessidades emocionais. Para ela, parecia tão “natural” que estas necessidades não fossem satisfeitas, que não podia supor a possibilidade de ser amada.
Atualmente Érica está super bem casada e feliz, com alguns altos e baixos emocionais, no entanto sentou na cabine de comando da sua vida e consegue administrar melhor as suas emoções. 
(Todos os nomes aqui são fictícios).

Até Breve,

Adriana Santiago
CRP: 05-20345
Psicologia Positiva


terça-feira, 1 de abril de 2014

O ESQUEMA DE PRIVAÇÃO EMOCIONAL


        Natália*, 34 anos,  procura atendimento muito deprimida, reclamando da frieza e distância do marido. Sua tristeza é contundente e sua depressão crônica, pois sempre que se dirige à Paulo*, (38)  em busca de abraços e de solidariedade, ele se irrita e se afasta. A seu turno, ela reage exageradamente à frieza do marido, que apesar de amá-la, não sabe como demonstrar. Este comportamento gera um ciclo vicioso: A frieza de Paulo aflora a  raiva em Natália, e a raiva dela, faz com que ele fique mais frio na relação, detonando seu ESQUEMA DE PRIVAÇÃO EMOCIONAL.
            
        Antes de se casar, ela havia se relacionado com um homem muito carinhoso, mas se sentiu “sufocada” por ele. Seus carinhos a deixavam absolutamente irritada. Natália sempre se sentiu atraída por homens que a privaram emocionalmente, e Paulo se encaixou muito bem neste padrão.Filha única de pais emocionalmente frios, que cuidavam de suas necessidades físicas, no entanto negligenciavam suas questões afetivas e emocionais, Natália perpetua sua privação da infância, pois foi assim que “aprendeu” a reagir.
            
         Este exemplo ilustra como a privação muito precoce na infância leva ao desenvolvimento de um esquema, que depois é acionado involuntariamente, provocando relacionamentos disfuncionais e por consequência, a depressão.    O esquema de Privação Emocional se caracteriza por uma expectativa de que a necessidade de conexão amorosa nunca será atingida. Pacientes com este esquema, sentem-se privados de emoções e pensam que não tiveram afeto, carinho e atenção suficientes. Chegam à terapia  solitários.amargos, deprimidos, mas em geral não sabem o porquê!

         Geralmente não se expressam e não são claros no que se refere às suas  necessidades afetivas. Não demonstram desejo de amor e conforto e é muito comum escolherem pessoas que não conseguem ou não querem se envolver. Os escolhidos, comumente, são frios, distantes, auto centrados ou carentes, portanto com muita possibilidade de privá-lo de expressões amor e carinho. Esta opção é uma forma de reforçar  seu esquema desadaptativo remoto.

       Em contrapartida, pacientes que hipercompensam a privação emocional são muito exigentes e se irritam quando suas necessidades não são alcançadas. Alguns foram tratados com muita permissividade quando crianças; mimados materialmente, sem regras a cumprir. Muitas vezes são adorados na sua infância, por algum talento ou dom, desenvolvendo seu  narcisismo. Como foram tratados com indulgência e privados de emoções, acham que seus desejos devem ser atendidos imediatamente sempre.

     Em outro extremo, pacientes mais esquivos, tornam-se solitários evitando relacionamentos íntimos ou, no máximo, mantêm-se em relacionamentos muito frios e distantes. Outros pacientes, ainda, podem se tornar exageradamente carentes. Eles expressam tanta necessidade de atenção e amor que acabam muito  apegados ou desamparados. Têm inúmeras queixas físicas pois assim recebem atenção especial. Este é o caso dos histriônicos.
           
       O objetivo da terapia com estes pacientes é fazê-los entender que estas necessidades  são naturais e corretas. Toda criança precisa de carinho, empatia e proteção. Os adultos também. Ajudar os pacientes a se tornarem conscientes de suas carências emocionais e fazê-los entender que podem escolher amores mais adequados às expectativas reais é o grande mote do nosso trabalho com esquemas.
            
     
(* nomes fictícios)
Até mais.
Obrigada
Adriana Santiago
CRP: 05-20345

Psicologia Positiva