quinta-feira, 5 de maio de 2016

Controle emocional, você tem?

                                                                                                “Qualquer um pode zangar-se – isso é fácil. Mas zangar-se com a pessoa certa, na medida certa, na hora certa, pelo motivo certo e da maneira certa – não é fácil”.  (Aristóteles)

                “Fiz sem pensar!” Esta é uma exclamação comum de quem cometeu um ato movido somente pela emoção. Casamentos desfeitos, amizades destruídas, mágoas profundas e decepções permanentes são resultados de atitudes que não são filtradas pelo pensamento. Além de prejuízos nas relações afetivas, o descontrole emocional afeta também a saúde física. Aristóteles, trezentos anos antes de Cristo, já afirmava que o problema não está na “emocionalidade” e sim na adequação entre a emoção e sua manifestação. Para Antônio Damásio, renomado neurocientista da atualidade, as emoções se expressam no corpo e nos ajudam a decidir. Mas precisamos nos perguntar: quando a emoção atrapalha? Quando ela nos trai escapando do nosso controle? Como a razão vem ao seu encontro para auxiliar-nos a viver melhor?
Você já deve ter passado ou presenciado uma situação parecida com essa: de súbito uma comoção corporal o seqüestra da razão e há uma explosão de cólera. Ricardo, engenheiro bem sucedido, 32 anos, viveu isto e sofre as conseqüências do descontrole até hoje. Em um típico domingo carioca, ia à praia com a mulher e seus dois filhos quando, de repente, se envolveu em uma briga de trânsito. Sentiu-se ameaçado e o medo fez com que reagisse de forma truculenta jogando o carro contra o motociclista que o havia fechado no sinal. O sujeito morreu e ele está preso por simplesmente não ter conseguido administrar a inundação emocional que o assolou. O que aconteceu em seu cérebro? Por que não pensou antes de agir?
Nosso cérebro, máquina poderosa de aproximadamente um quilo e meio, nem sempre teve este formato. Evoluiu junto com a nossa espécie até se tornar o que é hoje. Em 1990, o neurocientista Paul Maclean, em seu livro “The Triune Brain in Evolution: Role in Palocerebral Functions”, apresentou-nos uma fascinante teoria. Segundo esta perspectiva ele é dividido em três camadas. A primeira e mais primitiva, denominada cérebro reptiliano, é formada pela medula espinal e porções basais do prosencéfalo. Responsável por promover apenas reflexos simples funciona como um transmissor de impulsos gerados nas outras duas camadas cerebrais. Por exemplo, no caso do medo e da raiva é ele quem libera impulsos para que os hormônios invadam a nossa corrente sanguínea nos preparando para a luta ou fuga. O reptiliano não tem dúvidas nem arrependimentos. Obedece ordens e os impulsos liberados por ele só querem satisfação. O seu objetivo é manter a espécie fazendo com que o animal que mora em nós obedeça seus comandos. Se for preciso fugir ou lutar é ele quem otimiza seu batimento cardíaco e sua respiração na intenção de um máximo desempenho físico, aprimorando a sua capacidade  para enfrentar a caçada diária e escapar do predador. Ele é o responsável por atitudes já programadas em nosso genoma. Estes comportamentos são automáticos, estão longe do ato de pensar: respiração, deglutição, batimentos cardíacos, fome, desejo sexual e reações de fuga ou luta “moram” neste lugar. O cérebro reptiliano só libera os impulsos, mas não os avalia.
Pássaros, jacarés, sapos, cobras, lagartos e outros animais menos complexos só possuem esta porção cerebral. Apenas os mamíferos foram brindados com uma segunda  casca  chamada de cérebro emocional. Formada pelo sistema límbico comanda os impulsos instintivos do cérebro reptiliano.  Lá estão as glandulazinhas poderosas que armazenam as emoções: as amígdalas cerebrais e o hipocampo. Enquanto as amígdalas determinam quais lembranças serão armazenadas com base na relação emocional provocadas por uma experiência, o hipocampo guarda, por um curto período de tempo, tais informações. É neste lugar que as emoções de medo, raiva e desejo, ganham identidade e se desenvolvem para servir aos impulsos do cérebro reptiliano. É no cérebro emocional que está o alarme que sinaliza que tipo de ameça estamos vivendo. No entanto, é preciso raciocinar se a ameça percebida é de fato real. Se precisamos realmente reagir a tal estímulo de maneira conduntente. No caso do Ricardo, que sentiu que sua família estava sendo ameaçada, seria preciso pensar: “É necessário mesmo matar este sujeito para proteger os meus?”
Esta propriedade avaliativa é responsabilidade do neocórtex,  a terceira camada desenvolvida pela evolução humana. É uma área nobre, região do intelecto, da tomada de decisão, do raciocíno superior. Enquanto  o cérebro emocional e o repitiliano nos impulsionam a fazer aquilo que precisamos para a manutenção da espécie, o neocórtex usa a inteligência para alcançar este fim. Seu objetivo é filtrar nossas emoções e impulsos institintivos através do pensamento. Ele é o centro da autoconciência, do livre arbítrio e das nossas escolhas. É quem nos torna usuários plenos e potencialmente senhores da nossa vida.  Ricardo não se deu tempo de pensar. Agiu emocional e impulsivamente. E, ao contrário do desejado, foi sequestrado pela emoção.
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Profundamente enraizado em nossa herança biológica, o animal dentro de nós parece muito mais forte que qualquer mecanismo mental de mediação. No entanto é preciso esforço para domesticar a fera que nos habita e isto só é possível através de um processo cognitivo de avaliação e ponderação. Se Ricardo tivesse raciocinado, entenderia que atropelar o homem não era uma reação proporcional à ameaça que sentia. E, se avaliasse um pouquinho mais na frente, teria concluído que desperdiçar sua existência por uma simples confusão no trânsito não valeria a pena. A psicoterapia serve para colocarmos as coisas em seus devidos lugares e fazer com que o animal irracional que vive em  nós use a nossa área nobre do cérebro, responsável pelo raciocínio e viva de acordo com o que lhe faz bem. Domesticar o nosso animal interior é um dos primeiros passos para uma vida de sucesso.

ALGUMAS DICAS PARA MANTER O CONTROLE EMOCIONAL:
1)    Diante de um evento que lhe comove corporalmente, busque através do seu pensamento, achar uma lógica para o que sente.
2)    Se alguém lhe ofender, pare para pensar que o xingamento está relacionado ao que o outro acha de você, o que nem sempre pode corresponder à verdade.
3)    Conte até dez. Se não adiantar, conte até 20.  Esta é uma excelente alternativa para que suas emoções passem pelo filtro da razão. O tempo é fundamental para darmos uma resposta adequada.
4)    Se coloque no lugar do outro. Uma postura empática sempre ajuda na compreensão do mundo.

5)    Se estas dicas acima não se mostrarem suficientes para melhorar a sua expressão, busque ajuda de um profissional. Você precisa entender o que te faz  perder a razão.